Segue abaixo alguns trechos selecionados por mim do livro "O Príncipe", de Niccolò Machiavelli (Nicolau Maquiavel, no Brasil). Estamos sempre utilizando autores orientais para pensar artes marciais, como Myamoto Musashi e Sun Tzu, mas esquecemos que a guerra é, até onde me consta, comum à todos os povos, e talvez outros pensadores do lado de cá de Greenwich também tenham algo a nos ensinar.
Esta obra foi escrita pelo filósofo político Niccolò Machiavelli no século XVI, quando a península itálica vivia um período de intensa disputa política entre cinco potências locais: Ducado de Milão, a República de Veneza, a República de Florença, o Reino de Nápoles e os Estados Pontifícios; que incapazes de manter alianças políticas por muito tempo, deixavam o território a mercê de invasores estrangeiros, como era o caso dos franceses. Somado à estas efervescências políticas ainda temos o que foi chamado de Renascimento, quando valores e práticas pagãs voltam à cena, e o conflito com o cristianismo era inevitável.
Em meio à esta confusão Machiavelli escreve o que alguns chamariam de "Manual para Unificação da Itália", mas que ele preferiu intitular apenas como "Il Principe", onde avalia e comenta as ações de líderes políticos e generais, fazendos considerações sobre o que é positivo ou não em determinadas situações. É atribuída à esta obra a frase(ou a sugestão da mesma) "Os fins justificam os meios", mas isso é no mínimo controverso, dado que uma ética (cristã) permeia muitas das falas do autor. Mas vamos ao que interessa:
"Continuando com as demais qualidades antes mencionadas, digo que todo príncipe deve desejar ser considerado piedoso e não cruel; entretanto, deve cuidar-se para não usar mal esta piedade.(...) Um príncipe deverá, portanto, não se preocupar com a fama de cruel se desejar manter seus súditos unidos e obedientes. Dando pouquíssimos exemplos necessários, será mais piedoso do que aqueles que, por excessiva piedade, deixam evoluir as desordens, das quais resultam assassínios e rapinas(...)
Contudo, o príncipe deve ser ponderado em seu pensamento e ação, não ter medo de sí mesmo e proceder de forma equilibrada, com prudência e humanidade, para que a excessiva confiança não o torne incauto, nem a exagerada desconfiança o faça intolerável.
Surge daí uma questão: é melhor ser amado que temido ou o inverso? A resposta é que seria de desejar ser ambas as coisas, mas, como é difícil combiná-las, é muito mais seguro ser temido do que amado, quando se tem de desistir de uma das duas. Isto porque geralmente se pode afirmar o seguinte acerca dos homens: que são ingratos, volúveis, simulados e dissimulados, fogem dos perigos, são ávidos de ganhar e, enquanto lhes fizerem bem, pertencem inteiramente a ti, te oferecem o sangue, o patrimônio, a vida e os filhos, como disse acima, desde que o perigo esteja distante; mas, quando precisas deles, revoltam-se. O príncipe que se apóia inteiramente em suas palavras, descuidando-se de outras precauções, se arruína, porque as amizades que se obtêm mediante pagamento, e não com a grandeza e nobreza de ânimo, se compram, mas não se possuem, e, no devido tempo, não podem ser usadas. Os homens têm menos receio de ofender a que se faz amar do que a outro que se faça temer; pois o amor é mantido por vínculo de reconhecimento, o qual, sendo os homens perversos, é rompido sempre que lhes interessa, enquanto o temor é mantido pelo medo ao castigo, que nunca te abandona.
Deve contudo o príncipe fazer-se temer de modo que, se não conquistar o amor, pelo menos evitará o ódio, pois é perfeitamente possível ser temido e não ser odiado ao mesmo tempo(...)
Quando, porém, o príncipe está em campanha, no comando de uma infinidade de soldados, nã precisa absolutamente se preocupar com a fama de cruel, porque, sem esta fama, jamais se mantém um exército unido e disposto à ação.(..)
Assim, voltando à questão sobre ser temido e amado, concluo que, como os homens amam segundo sua vontade e temem segundo a vontade do príncipe, deve este contar com o que é seu e não com o que é de outros, empenhando-se apenas em evitar o ódio, como dissemos."
Contudo, o príncipe deve ser ponderado em seu pensamento e ação, não ter medo de sí mesmo e proceder de forma equilibrada, com prudência e humanidade, para que a excessiva confiança não o torne incauto, nem a exagerada desconfiança o faça intolerável.
Surge daí uma questão: é melhor ser amado que temido ou o inverso? A resposta é que seria de desejar ser ambas as coisas, mas, como é difícil combiná-las, é muito mais seguro ser temido do que amado, quando se tem de desistir de uma das duas. Isto porque geralmente se pode afirmar o seguinte acerca dos homens: que são ingratos, volúveis, simulados e dissimulados, fogem dos perigos, são ávidos de ganhar e, enquanto lhes fizerem bem, pertencem inteiramente a ti, te oferecem o sangue, o patrimônio, a vida e os filhos, como disse acima, desde que o perigo esteja distante; mas, quando precisas deles, revoltam-se. O príncipe que se apóia inteiramente em suas palavras, descuidando-se de outras precauções, se arruína, porque as amizades que se obtêm mediante pagamento, e não com a grandeza e nobreza de ânimo, se compram, mas não se possuem, e, no devido tempo, não podem ser usadas. Os homens têm menos receio de ofender a que se faz amar do que a outro que se faça temer; pois o amor é mantido por vínculo de reconhecimento, o qual, sendo os homens perversos, é rompido sempre que lhes interessa, enquanto o temor é mantido pelo medo ao castigo, que nunca te abandona.
Deve contudo o príncipe fazer-se temer de modo que, se não conquistar o amor, pelo menos evitará o ódio, pois é perfeitamente possível ser temido e não ser odiado ao mesmo tempo(...)
Quando, porém, o príncipe está em campanha, no comando de uma infinidade de soldados, nã precisa absolutamente se preocupar com a fama de cruel, porque, sem esta fama, jamais se mantém um exército unido e disposto à ação.(..)
Assim, voltando à questão sobre ser temido e amado, concluo que, como os homens amam segundo sua vontade e temem segundo a vontade do príncipe, deve este contar com o que é seu e não com o que é de outros, empenhando-se apenas em evitar o ódio, como dissemos."
Referência Bibliográfica:
MAQUIAVEL, Nicolau; O Príncipe; Ed. Martins Fontes; Terceira Edição; São Paulo-SP; 2004; pp79-82



