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terça-feira, 5 de junho de 2012

Você realmente entende o que é a Bujinkan?



Quando ministro seminários me surpreendo com frequência ao descobrir os equívocos realizados tanto por professores quanto alunos ao redor do mundo. Como disse uma vez durante um seminário: "Ninguém está forçando você a ser parte da Bujinkan, se você quiser fazer suas próprias coisas, faça, mas não chame isto de Bujinkan!".

Por isso, foi um verdadeiro prazer no último final de semana encontrar o grupo de Manolo Serrano, na Bélgica, e passar algum tempo com ele e os irmãos Mitrou, da Grécia. Todos eles 14°dan, foi bom partilhar a nossa visão da arte. No caminho de volta, pensei que seria apropriado neste espaço do blog refrescar nossa memória sobre o que é o Bujinkan realmente é.

Hatsumi sensei, quando começou espalhar sua visão sobre Budô e compartilhá-la por todo o mundo, não havia nenhum plano, nenhum processo passo-a-passo acontecendo. Hatsumi sensei estava apenas compartilhando seus conhecimentos com todos os dispostos a ouvir. Em 1983 ele publicou, em japonês, o seu primeiro Ten Chi Jin Ryaku no Maki, no qual detalhava os princípios e fundamentos da nossa arte. Um versão revisada, traduzida para o Inglês, chegou até nós da Europa em 1987. Dez anos mais tarde Hatsumi sensei decidiu seguir em frente e estabeleceu um tema e um conceito para ser trabalhado a cada ano.

Em 1993, tive a sorte de ser jûdan na Bujinkan, com fundamentos suficientemente estabelecidos para acompanhar a evolução do sensei em seus ensinamentos. Como muitos praticantes da Bujinkan de hoje não eram estudantes naquela época, gostaria de listar novamente os temas que criaram a arte como conhecemos hoje.

Após o Ten Chi Jin Ryaku no Maki, aprendemos distanciamento e angulação ao longo de 5 anos:


Bô jutsu - Bastão de 180cm (1993),
Yari jutsu - Lança (1994),
Naginata jutsu - Alabarda (1995),
Biken jutsu - Espada (1996),
Jo jutsu - Bastão de 90cm (1997).


Durante o Taikai de Valencia (1995) e novamente no Sanmyaku (o boletim de notícias da Bujinkan, na época) Hatsumi sensei disse que ", yari e naginata são os sanshin no kata das armas longas".

Então entramos no mundo do budô taijutsu e estudamos não as escolas (como se frequentemente acredita), mas os 5 pilares do movimento do corpo, através de cinco dentre as nove, que foram:


Taihen jutsu - shinden fudo ryû (1998),
Daken taijutsu - kukishinden ryû (1999),
Koppo jutsu - roto ryû (2000),
Kosshi jutsu - gyokko ryû (2001),
Jûtaijutsu - takagi yoshin ryû (2002).


Este segundo ciclo de cinco anos, que pode estar relacionado de alguma maneira ao gogyô, nos permitiu entender (através do treino em escolas específicas) as várias formas de encarar o adversário e adaptar a nossa forma de lutar à situação.

O terceiro ciclo foi ainda mais complexo, conforme adentrávamos o mundo ou a dimensão do juppô sesshô ("Negociando nas Dez Direções”). Aquele também foi um ciclo de 5 anos. No Japão, juppô sesshô é o mais alto nível técnico e mecânico em qualquer sistema marcial (ryûha), e confere a possibilidade de adaptar uma forma específica de combate a qualquer situação encontrada. Quanto ao segundo ciclo (os 5 Pilares do budô taijutsu), o ponto importante aqui não tem nada a ver nem com a arma que usamos ou a escola estudada. O ciclo de juppô sesshô foi o seguinte:


Sanjigen no sekai - kunai e shotô (2003),
Yugen no sekai - roppô kuji no biken - espada de kukishin (2004),
Kasumi no hô - gyokko bô (2005),
Shizen - shinden fudô ryû (2006),
Kuki Taisho - espada e yoroi (2007).


O juppô sesshô desencorajou diversos praticantes e até hoje muitos dos shidoshi realmente não têm idéia do que foi estudado durante esses 5 anos. Muitos professores não entendem a profundidade do temos recebido. Quantos deles sabem que as técnicas de kukishin ryû bô jutsu eram usadas para ensinar o sentimento de kasumi da gyokko ryû? Também o movimento de "happo" para "juppô" deve ser visto como uma espécie de salto quântico no mundo da física da Bujinkan.

Este ciclo de juppô sesshô terminou a série que agora podemos ver como uma espécie de ten chi jin. Todos sabemos que o ten ryaku lida com o trabalho dos pés (ângulo, distância), o chi ryaku com a mecânica do corpo (budô taijutsu) e o jin ryaku com uma mistura de tudo (movimento do corpo ao espírito).

Esta progressão em 3 etapas (sanpô) de 5 anos (gohô) pode ou deve ser considerada como o verdadeiro kihon happô da Bujinkan (3 × 5 = 8!).

Então era hora de começar o estudo do shiki - consciência - do sexto elemento que o sensei introduziu à nossa comunidade, em 2005. Então, estudamos coisas mais baseadas em conceitos "filosóficos" do que em escolas ou movimentos mecânicos. Foram elas:


Menkyo Kaiden - destruir o processo de pensamento (2008),
Sainô kon ki ou saino tamashii utsuwa - a habilidade, o espírito e o recipiente (2009)
Rokkon shôjô - a felicidade é a essência da vida (2010).


Se Hatsumi sensei seguir o ciclo de cinco anos que ele, aparentemente, tem seguido até agora, podemos esperar o final deste para 2012. Mas é apenas um palpite.

Espero que esta pequena revisão dos vários temas tenham sido úteis para você, que agora você pode responder à pergunta inicial:

Você realmente entende o que é a Bujinkan?

Arnaud Cousergue Shihan
Tradutor: Daniel Pires

Este texto foi originalmente publicado no endereço eletrônico: http://kumafr.wordpress.com/2010/03/29/do-you-understand-the-bujinkan/

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Cerimônia

É recorrente, quando se fala de cultura japonesa, lembrar dos gestos, sendo o de se curvar o mais lembrado. Isso é porque o Rei Shiki (etiqueta) é muito importante para eles, determinando desde o lado usado para carregar arma e a forma de carregá-la (Ex.: Katana, Rokushaku Bo) até como você se senta e se porta próximo ao mestre.

Muita gente pergunta o significado da cerimônia que fazemos antes e depois dos treinos e sobre as palavras que dizemos. Farei alguns esclarecimentos sobre eles, para não causar desconforto em alunos novos e nem dar margem para más interpretações.

Aquela cerimônia é parte do que chamamos da nossa etiqueta no dojo e foi ensinada ao Soke por Takamatsu. Ela nada tem de adoração a imagens ou algo do tipo. É uma forma de cumprimentarmos o sensei(professor); de focarmos no treinamento, lembrando porque estamos ali; de deixarmos o mundo exterior lá fora e, ao sair carregarmos o dojo para o mundo.

Seguem abaixo duas interpretações do mantra que dá início e fim aos treinos - e não traduções, pois mantras não se traduzem.

- Um interpretação geral, sobre o mantra todo:

Shikin Haramitsu Daikomyo

“O momento da verdadeira interação entre a mente e o espírito conduz à iluminação”

- E parte por parte:

Shikin é a sensação e a harmonia percebida pelos sentidos do coração e da audição. É também o som criativo que nasce da união de dois pólos opostos (in/yo, yin/yang, homem/mulher).

Haramitsu, bem conhecido na linguagem Sânscrita como Pararnita (um dos Paramita Ksanti), que é o Satori do Buda ou um estado permanente de despertar espiritual que ultrapassa os limites da vida e da morte. A essência dos seis Paramita consiste em não sentir amargura, dor ou inveja e desenvolver perseverança na relação com o mundo à nossa volta. A idéia do sensei Hatsumi é promover a sinceridade, a lealdade e a honestidade.

Daikomyo no Budismo significa o grande esplendor de Buda. Para nós, é a iluminação que parte de nosso interior e vai até o nosso exterior. Ele ou ela pode sentir o plano físico como a luz do nosso coração.

O Sanpai sahō vêm de uma tradição Shinto da manifestação do Otodama, a presença espiritual (de si) na forma de um som. No nosso caso, batemos duas palmas, nos curvamos em reverência e batemos mais uma.

Onegai Shimasu (dito antes do treinamento) dignifica  "Por favor, me instrua/oriente."

Domo Arigato Gozaimashita (dito após o treinamento) é uma maneira formal de dizer "Muitíssimo Obrigado"

Notem que a etiqueta e o respeito existem dos dois lados, o professor também é instruído e também agradece aos alunos.

Espero ter ajudado a esclarecer um pouco do que fazemos dentro do dojo e fiquem à vontade para expressarem suas dúvidas.

Daniel Pires Shidoshi

P.S.: Partes deste texto foram tiradas de outros textos e outros sites. Não tenho comigo o nome dos autores, já que são textos amplamente divulgados. Caso você seja o autor e se sinta ofendido me comunique.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Entrevista na CBN - Defesa Pessoal para Mulheres

Acabei de uma entrevista na CBN Campinas sobre Defesa Pessoal para Mulheres e vocês podem conferir abaixo.

Buffu Ikkan,
Daniel Pires


sexta-feira, 17 de junho de 2011

Velocidade no Treino de Artes Marciais

As pessoas às vezes perguntam por que somos encorajados pelo Soke e pelos Shihan a nos mover lentamente durante os treinos. Essas pessoas comumente seguem essa colocação com comentários como "Mas uma luta real não seria bem mais rápida e explosiva?". Deparei-me com um interessante artigo sobre a questão da velocidade quando estava aprendendo sobre uma arte marcial interna de origem chinesa, o Tai Chi, que acredito tratar esta questão maneira apropriada:

"Tai Chi é normalmente realizado com dois tipos de velocidade. Noventa e nove por cento dos movimentos de Tai Chi são feitos muito lenta, suave e plenamente*. No entanto, mesmo que você se mova suave e plenamente é possível ir do movimento lento para o muito lento, para o super lento quase como um melaço escorrendo de uma colher. Alcançar o absoluto pináculo da vagareza permite o seu sistema nervoso central libertar-se totalmente e tornar-se equilibrado. Com isso você se torna capaz, se assim optar, de mover-se em alta velocidade, à vontade. Este um método básico através do qual a real velocidade é alcançada no treinamento Tai Chi como arte marcial. Libertar suficientemente o sistema nervoso torna possível para o seu corpo mover-se em qualquer velocidade, virtualmente sem barreiras internas.

Robin Doenicke Shihan

*Nota de Tradução: no original a palavra usada foi "evenly", numa tradução mais direta "uniforme", porém optei por "pleno" por representar mais a totalidade do movimento, não só no sentido de uno, mas de completo, no caso a compreensão do mesmo.

Tradutor: Daniel Pires
Revisor: Gustavo Sícoli

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Shuriken Jutsu

Este post não pretende ser um extenso tratado sobre shuriken, apenas apresentar estas armas e dar uma breve explicação do seu uso. Pretenciosamente acabar um pouco com a fantasia em torno das "estrelas ninja".

O que é um Shuriken?

São armas de arremesso divididas - grosso modo - em dois grupo: Semban Shuriken (ou Hira Shuriken) e Bo Shuriken.

No primeiro se enquadram as lâminas planas, ou achatadas, com três ou mais pontas, que variam de acordo com a escola (Ryu) ou mesmo idiossincrasia do artesão. Abaixo temos alguns exemplos:

(na imagem acima existem dois que não são Semban/Hira Shuriken, são as duas lâminas no canto inferior esquerdo)
Bo Shuriken, o segundo grupo, são armas de duas pontas, algumas em formato cilindrico (como pregos), quadrado ou ainda achatadas, como facas. Alguns exemplos:



Usos do Shuriken

Contrariando a senso comum, não acredito que esta seja uma arma sempre mortal, como geralmente é mostrada ou citadas. São armas versáteis, utilizadas para conseguir brechas para um ataque mais letal ou ainda a fuga. Armas para causar distrações.

Não atingem grandes profundidades, e exigem muito treino para se conseguir uma proficiência que lhe torne realmente perigoso com ela, capaz de atingir, por exemplo, uma artéria ou veia no pescoço combate real - onde tudo é mais difícil do que no Dojo.

Alguns dizem que elas eram mergulhadas em veneno, mas especialmente no caso das Semban Shuriken, o risco de se envenar com sua própria arma é muito grande, não só na hora de arremessar, mas também no transporte das mesmas, já que são feitas para serem carregadas ocultas, junto ao corpo. Acontecia do ninja em questão levar o veneno consigo num fracos e aplicálo na hora o arremesse, mas é uma situação específica e premeditada.

Uma forma interessante de lutar com Shuriken além de arremessá-las é usá-las ocultas na mão, para furar e cortar, num combate mais próximo. Pessoas de fora costumam nem perceber que você está com uma arma até que vejam sangue.

(Peças da coleção do Soke Masaaki Hatsumi)

Daniel Pires

Obs.: Não tenho Direito de Cópia (Copyrights) de nenhuma das imagens que utilizei aqui,
se elas são suas e você se sentiu ofendido não perca tempo me processando,
apenas peça que eu as retiro do Blog.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Butoku Dojo - Botafogo

Boas novas,

Temos no Brasil um novo Dojo: Butoku Dojo Botafogo. O endereço e os horários de aulas estão abaixo:



Academia Ari Fight
Av. Voluntários da Pátria, 274 - Bairro Botafogo
Em frente à Igreja São João Batista
Rio de Janeiro-RJ

Terças e Quintas-Feiras, das 8h às 10h
Segundas e Quartas-feiras, das 21h às 22h.
Sábados das 15h às 17h. (a partir de Junho/2010)


O espaço da academia.

Como tudo começou.

E como está ficando...

E vamos seguindo em frente, fazendo crescer o Budo Taijutsu no Brasil e formando bons praticantes.

Buffu Ikkan,
Daniel Pires

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Muguri no Shinken Gata




Shinken Gata, na nossa tradição guerreira, significa a espada com corte de fato, afiado, mas também pode se referia simplesmente ao combate real, também chamado de Jissen. Na nossa arte nem todos os praticantes se movimentam da mesma maneira, apesar de todos terem a mesma fonte - Hatsumi sensei. Nem todos têm o mesmo taijutsu, já que não é o praticante que se adapta a arte, mas sim a arte que se adapta ao praticante, fazendo com que haja uma liberdade de movimentos incrível e também que duas pessoas que, supostamente, possuem a mesma graduação tenham níveis de habilidades diferentes, dependendo da necessidade, treinamento, vontade de aprender e ego.

Quando penso em Shinkengata um dos nomes que vem a minha cabeça é o do Shihan Phil Legare, o qual desenvolveu com Hatsumi sensei o Shinken Taijutsu - baseado em Shinkengata tendo recebido Menkyo Kaiden direto de Hatsumi sensei.O outro nome é o do Shihan Michael Simien, Jugodan - Kugyo Happo Hikenjutsu Menkyo Kaiden, cujas habilidades em combates reais são surpreendente e me compeliu a escrever este artigo. Treino com ele há aproximadamente cinco anos e ainda me surpreendo em quase todas as aulas, consigo ver técnicas novas e com uma eficácia impressionante, fazendo com que movimentos supostamente simples se tornem extremamente mortais. Na noite de hoje (17/02/2010) no final do treino, fui chamado para ser uke pelo Michael, tendo que atacar com dois fudokens, e esperei que a resposta do Mike fosse ser apenas fazer uma técnica ou outra, só que para a minha surpresa ele usou técnicas de Moguri Gata, "mergulho", para contra-atacar todos os meus ataques e quando eu percebia, já estava recebendo diversos golpes dele, sendo que fui acertado até quando estava caindo, no ar. A diversidade de golpes foi tão intensa que era difícil até levantar para atacar de novo. Ao final do treino, sei que as pessoas que assistiram as técnicas estavam maravilhadas, mas apenas eu como uke pude perceber a real intensidade das técnicas. Fiquei pensando, até agora, como consegui ser golpeado tantas vezes, tão precisamente e em tão pouco tempo e acredito que além do conhecimento excepcional que o Michael tem sobre distância, angulo e timing, ele possui um ainda maior sobre kyushos e como golpeá-los, fazendo com que sua técnica tenha o máximo de dano possível. Esse é um outro nível no Budô, como o Shihan Arnaud Cousergue disse, os Shihans até o 14º dan são como estudantes de uma faculdade e os 15º dan são os formandos da mesma. Então, enquanto ainda estou no jardim de infância do Budo, compartilho a minha pouca experiência com vocês para dizer que o Budo realmente é um estudo para a vida toda, e nunca se chega a um fim, pois enquanto estivermos vivendo sempre temos algo a aprender, até que o nosso corpo se mova sem pensarmos, e alcançarmos o que Hatsumi sensei chama de "Olhos e Mentes do Divino".

Shidoshi-ho Américo Neto,
Sandan